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Paraíba, 24 de Maio de 2013

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Editorial



Pega, mata, esfola e esquarteja
 
                                                                     Texto originalmente publicado na edição de domingo, 24 de junho, em "A União"



Não há dúvidas de que o grotesco dá audiência. Isso não é exclusividade da Paraíba. Desde os tablóides ingleses ao Já de R$ 0,25, está provado que adoramos uma tragédia, especialmente se for servida com muito sangue, sórdidez e selvageria.
 
Para piorar, também é verdade a profecia de Andy Warhol: no futuro (e ele chegou!), todos terão seus 15 minutos de fama.
 
Como nem todo mundo é talentoso, espirituoso, boa gente nem tem elevações de espírito, os marginalizados também querem ser alçados a celebridades e eles dão "seus jeitos".
 
O noticiário paraibano recente mostrou dois crimes com as mesmas características: o esquartejamento acompanhado de recados para a imprensa. Primeiro, um suspeito de estupro foi encontrado no Jardim Guaíba, em João Pessoa, com um papel sobre as nádegas onde se lia algo como "estuprador morre assim".
 
Com o circo do horror montado a cada hora do almoço, algumas emissoras de TV fizeram a festa e, mais uma vez, espetacularizaram a desgraça. Os pedaços da vítima podiam ser vistos com o efeito "blur" - aquele borrado que não esconde o vermelho-sangue – enquanto o apresentador adjetivava o quadro fartamente para destacar a crueldade do assassinato.
 
Não deu outra. Menos de uma semana depois, na mesma localidade, duas mulheres foram esquartejadas e deixadas junto com um bilhete que, naquela ocasião, era destinado ao mais famoso apresentador dos policialescos televisivos, explicando que no Brasil era daquele jeito: deveu, não pagou, morreu.
 
A polícia admite que os crimes podem estar relacionados. Sem querer desmerecer a inteligência policial, parece óbvio mesmo que estejam.
 
Primeiro, esquartejaram um homem. O crime foi tão... destrinchado e narrado como se enaltecesse a barbárie que levou o criminoso a repetir o mal feito. Para voltar a ser notícia, ele matou de novo. Fez isso para ter seu instinto destacado não apenas em seu grupo, mas também para ser temido pela sociedade de João Pessoa, que reza para nunca cruzar o caminho do filhote de capeta.
 
Agora, a pergunta que não quer calar: mais importa a audiência subir, regada às vísceras dos três miseráveis mortos, ou lembrar do que se propõe aquela cafona definição de "comunicador social"? Que quadro miserável estamos ajudando a pintar nesse mundo quando expomos amiúde crimes dantescos como a série de esquartejamentos? 
 
Para quem comunica, a função maior deveria ser a de oferecer informações que pudessem melhorar a sociedade. Claro que o horror também é notícia e não pode ser escondido. A diferença está em mostrá-lo como chaga, passível de punição, e não fazer-lhe um elogio, ainda que camuflado em expressões de reprovação que ajudem a detalha-lo quase pedagogicamente.
 
Para os esquartejamentos poder-se-ia aplicar uma regra simples adotada por quase toda a imprensa no caso de suicídios. Não se dá destaque. Quando se trata de cidadãos problemáticos que flertam com a morte, a visibilidade do flagelo vira incentivo.
 
Com os homicídios, pode acontecer o mesmo. Se o telespectador tiver uma mente perturbada, terá do relato um norte de como conseguir ser protagonista do horror na TV. E ainda poderá escrever, de próprio punho, um bilhetinho para que o apresentador leia e nutra a vaidade doentia do remetente.
 
É assim mesmo? O que interessa no fim é só aumentar o Ibope e vender o merchan?
 
     
     
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Cláudia Carvalho


Cláudia Carvalho é radialista e jornalista premiada, com especialização em Jornalismo Cultural. Pioneira no webjornalismo da Paraíba, é apresentadora do Tambaú Debate da Nova Tambaú FM e colunista dominical do jornal "A União".





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