Nenhum espectador da briga do PSB de João Pessoa entende com facilidade o que levou os cérebros do partido a uma divisão tão feroz quanto a que se instalou quando Luciano Agra foi desistido da disputa pela reeleição. Sim. Que ele assinou aquela carta renunciando à sua condição natural de pré-candidato é fato. Mesmo assim, até as crianças que brincam nos CREIS sabem que não foi uma decisão espontânea, mas o ápice de um processo de convencimento do qual participaram vários protagonistas.
O partido governa a maior cidade do Estado e a própria Paraíba. Tudo deveria seguir calmo como um campo de girassol, mas a ciumeira despertada quando Estelizabel Bezerra foi escolhida para substituir Agra é uma hecatombe floral.
Na verdade, quase tudo envolvendo essa crise tem um viés psicológico. Por que, em um primeiro momento, Estelizabel foi escolhida para ser a sucessora de Agra? Porque o discurso, a postura, a origem política têm tudo a ver com Ricardo Coutinho.
A galera que sempre esteve ao lado do "mago", por sua vez, começou a cantar aquela música do Kid Abelha e o refrão de "Por que não eu?" continua ecoando até agora. Nonato Bandeira, Luciano Agra, Alexandre Urquiza e Bira, seres notadamente políticos, engoliram a seco a predileção da cúpula, inspirada por Ricardo, pela então pré-candidata a vereadora. O bolo não foi digerido, contudo, e junto com Roseana Meira, a tchurma pensou em uma retomada do "Volta, Agra" para tentar mostrar a Ricardo Coutinho que ele estava errado e que seus ex-fieis escudeiros, além de se ressentirem da falta de valorização de seus esforços no "coletivo", também têm visão e são capazes de virar um jogo pré-eleitoral.
Em meio à medição de forças, Agra tem sinalizado que não seguirá a decisão da convenção do PSB caso ela seja pela manutenção do nome de Estelizabel. Drama psicológico mais uma vez: não conseguindo protagonizar a rebelião contra a cúpula partidária, ele delegaria a Nonato Bandeira a espada para lutar sua guerra. Em comum, os dois têm muitas mágoas geradas por Ricardo Coutinho, de quem foram tão próximos e hoje recebem declarações atravessadas, com promessas de palmadas.
Uma crise tão intensa faz com que os envolvidos percam o foco. A briga e seus momentos de maior entusiasmo gera ataques que muitas vezes são difíceis de transpor. São feridas muito doloridas que não se resolvem com Band Aid. Os socialistas deveriam lembrar que, passada a convenção, seja qual for seu resultado, o partido precisará estar unido para poder pensar em chegar a um segundo turno. É uma possibilidade remota, dada a instabilidade do terreno. Se era Agra, Nonato, Ricardo, Roseana, Bira ou Urquiza que tinha razão pouco vai importar, a menos que os demais se engajem no projeto majoritário.
Se o grupo socialista decidisse fazer terapia de grupo para resolver seus dramas, perigaria o terapeuta se despedir aconselhando que, além da ajuda profissional, os girassois rezassem um terço, apresentassem oferendas ao mar ou coisa que o valha. Na hora do desespero, vale tudo!
Em outro lugar da cidade, José Maranhão, Cícero Lucena, Luciano Cartaxo e até Toinho do Sopão não se dão ao trabalho de produzir fatos. Até agora, eles se divertem vendo o coletivo pegar fogo e esperam para recolher as cinzas e jogar nas próprias campanhas. |